sábado, junho 14, 2008

A Ilha


O céu era uma tela infinitamente azul celeste decorada com laivos brancos pintados aqui e ali, o Sol brilhava incessante e quente, fazendo crescer sorrisos até nos corações mais estéreis. Toda a baía era tocada por uma brisa suave e a maré vazia deixava a nú as marcas da corrente na areia escura, que fora outrora arrancada aos montes que um dia brotaram do interior da Terra.

A pequena andava por ali, dentro do seu fato de banho catita que era como que um casulo que lhe envolvia as formas andróginas em metamorfose, de onde em poucos anos se libertaria um corpo esguio de mulher. A baía era o melhor sítio à face da Terra, todo o seu desejo de liberdade se saciava ali num mergulho longo. A água morna e salgada fazia desaparecer as zangas com os colegas, as pressões dos pretendentes mais velhos que ela abominava, a ausência de atitude da mãe e os sermões diários do pai que, um dia atrás do outro, lhe castravam a espontaneidade e as ilusões... De baixo de água, o horizonte era algo irresistivelmente verde e turquesa.
Na sua cabeça não se concebia a ideia de um dia acordar e de não poder ver o mar, o que um dia se revelaria uma prisão para os seus colegas de escola, para ela era uma sentença que queria adiar a todo o custo - a maior parte deles nunca abandonaria a ilha, enquanto que ela nunca poderia ficar para sempre.
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